Ciência e arte são dois conceitos que
dentro de certa ótica parecem até nos apresentarem valores que se opõem. No
entanto, quando muito podem os mesmos se aporem, mas não se excluírem. Um
cientista deve muito ao artista e o artista preciso da ciência, de tecnologia,
para produzir sua obra. De certa forma, o artista é grande visionário e o
grande bandeirante dos espaços que a ciência vislumbra, descobre e, finalmente,
conhece nas suas facetas mais reais, ou seja, a verdade enquanto forma de
conhecimento.
Provar isso não é muito difícil: Júlio
Verne, em sua obra, foi capaz de futurir a chegada do homem a lua e o homem
perscrutando os mares através dos submarinos. E a teoria atômica já fora
abordada por Lucrécio, bem antes de Cristo, em seu poema, escrito em latim,
“Sobre a Natureza dos Seres”. Por isso o artista é um visionário: percebe
o mundo em suas realidades além do seu tempo e da sociedade em que está
inserido; e é um bandeirante por que abre caminhos para que outros pensem na
mensagem que lega a sociedade e se atirem em busca de experiências a fim de
poderem corroborar ou desmistificar o teor do discurso do artista. E
é em função desta postura excêntrica, fora do comum, acima do sentir das
massas, que podemos colocar o artista como alguém que sente e vê o mundo a sua
volta de uma forma muito mais sensível: parece que os artistas têm mais
desenvolvida a intuição e a capacidade de ver além das aparências, as
imperfeições das formas, dos contornos, dos valores, dos gestos e dos
sentimentos daqueles que constituem sociedade em que imersos. É por isso que se
diz também que o artista é alguém que vive fora da sua época; e dai a
justificativa de serem considerados como mentes insanas, o que tem sido
comprovado ema alguns casos da história da humanidade; ou seja, alguns artistas
se engolfaram tanto e tão profundamente em suas obras que se distanciaram muito
da sociedade em que viviam, e foram tão mal compreendidos pela sua época que acabaram sofrendo em seu equilíbrio
emocional, e se tornaram vitimas da sociedade, justamente aquela que mais lhe
deveria apoias, já que, mais tarde, fica sempre a razão e a beleza da obra do
artista. Não é difícil concluir que o artista é sempre alguém que sofre por
compreender e interpretar o mundo e por ser pelo mundo incompreendido.
É dessa ultima forma que vejo a obra poética do jovem Euclides
Jacir Busatto: ela releva pelo menos cinco nuances distintas, cinco
preocupações que constituem o seu discurso poético. Lendo sua poesia podemos
constatar sua preocupação pelo social, pelo politico, pelo econômico, ao lado
de uma busca para compreender o problema ontológico e mítico, bem como revela
três facetas distintas do amor: o amor sexo, o amor esperança, o amor ternura.
E na visão politica do homem como um ser social encontra uma de
suas angustias; ele sente que a massa não tomou consciência da força que tem
para buscar dias melhores, e que a ignorância é a razão de sua própria
desgraça:
“O povo é disperso em sua.
O povo tudo que...
... sempre perde,
Nunca ganha,
Por que jamais se une na luta de fato.”
E é a partir deste
posicionalmente que se decide ir a luta por um espaço politico afim de que
possa usar deste recurso na busca por melhores condições que criem
oportunidades de maior numero de pessoas ao acesso pelas portas da cultura, da
educação da sabedoria, do conhecimento, pois só esse é o melhor caminho “que colocará o homem acima do sistema
politico”.
Seu texto poético revela uma
aparente contradição: fé e descrença. Ao lado de seu pessimismo diante das
mazelas da sociedade, enfatizada em suas poesias, de modo especial no enfoque
politico e econômico é capaz de vislumbrar uma luz no túnel davida.
“Não cabe mais pessimismo no avental do dia.
É tempo de erguer de sol
a sol as pedras do futuro
para que nossos filhos não cresçam no vazio.
Ainda há ouro no barro...
... Brasil de povos e matizes
Verde grandeza em alma madura.”
A presença dos elementos “sol, pedras do futuro, ouro, verde grandeza
em alma madura”, demostram que apesar da visão caótica é pouco conhecida na
sua realidade mais profunda, o poeta ainda alimenta expectativas de dias
melhores, de uma sociedade mais justa, mais humana, mais fraterna.
Os amores que canta são bem
claros. Há uma faceta de amor com “junção
de corpos no sexo impaciente” em um “temporal
de desejos” que “explode a mina do
prazer”; Há uma faceta do amor sacral: “guardei amor e o mais sagrado
sentimento: guardai um filho”; Há uma faceta do amor ternura: “sonha, chora,
dorme teu sono de paz que agora é hora”, por que “teus seios esconde uma flor
cujo perfume é a minha ausência”.
Mas é na preocupação de
inteligir o fenômeno do homem que o poeta se nos parece mais buscar inspiração.
O ser humano lhe aparece as vezes contraditório, absurdo como o homem de Camus;
os homens são uns “tiranos” que “disputam em meu tumulo” e que
“arrancam-me da paz”; os homens são aqueles que “fazem a guerra” “são dominados pela miséria, ambição é a morte”;
niilismo evidente em alguns do seus textos. Porém, nosso poeta sabe buscar
razões para erguer desta visão dantesca, e por isso conclama ao leitor:
“Apesar dos infortúnios
Tu deves persistir na luta
Pela vida.
Antes de tudo crê é preciso”
E é diante da perplexidade do
que seja Deus, a vida e a morte, que pude sentir a grandeza da busca do
Euclides na maratona que percorre para poder encontrar-se consigo, com a
sociedade e com o universo; o por isso também o tempo é um assunto muito
presente nos seus poemas.
“entre o agora e o futuro
A fé.
Entre o homem e o universo.
A justiça...
Onde Deus reside”.
A visão do mundo do poeta parece
bastante realista.
Ao lado de certo cepticismo,
encontra razão para esperar que este mundo, pelo menos dentro de um certo tempo
a de ser uma sociedade mais perfeita. E a receita ele mesmo dá, revelando
valores de sua estrutura familiar deve ter recebido: para ele “a vida é um veiculo maior” e no “fio” que
constitui “o tempo” residem todas as “esperanças”
bem como a “fé”, ponte que une o agora e o depois; e é por este caminho que
encontra um pouco de contato com o transcendental “o seu vinculo com Deus”.
Muito ligado como sempre com a
natureza bucólica e suas origens, se revela como criança escondida atrás da
fisionomia séria que em geral nos apresenta; o Euclides um garoto que ficou
grande de repente, e na imagem de dois pássaros sinto a metáfora da visão que
tem do mundo: O Pombo que representa a Paz e o Urubu as lezírias humanas:
“Pombo algum abandona o azul,
Supondo encontrar mundo onde
voa urubus.”
Almas aos Corpos: agora o titulo
que por si só justifica tudo o que o poeta deseja comunicar a seus leitores possíveis.
Euclides é um nome grego que significa homem inclinado para o bem e para ao
correto. E esta atitude de retidão que o homem-poeta: Euclides Busatto deseja
fazer chegar aos corações dos que tiveram sorte de lê-lo com espirito
desarmado, ou seja: com a intenção de encontrar uma fonte de águas limpas para
refrigerar a sensibilidade, o desejo de ter um encontro com a vida na sua realidade
e na sua forma idealizada. Sabemos que há no mundo pessoas que não vivem a vida
vendo-a com os olhos da alma; são tais pessoas tão materializadas que mais
parecem cadáver-vivos, sem capacidade de transcender um passo que seja, a sua
materialidade fenomênica. A essas e em especial a este livro dedicado para as
mesmas alcancem uma réstia de luz e se encontrem com o homem-transcendental que
existe dentro de cada um de nos, em busca de um mundo de outras dimensões, onde
a maldade humana não tem lugar.
Precisaria ainda deixar uma
linha de elogios ao ritmo de sua poesia, ritmo não raro sincopado, que revela
as nuances de suas angustias diante da vida, seus mistérios e suas incoerências.
Para finalizar, é bom dizer que é um privilégio ler as poesias de Euclides
porque elas nos ajudam a refletir sobre os valores que nos tornam mais gentes,
mas pessoas, mais irmãos. Este é seu objetivo: ser entendido como um poeta da censura,
mas, sobre tudo da esperança.
NICOLAU CHIAVARO
NETO
Mestre em Teoria Literária
In memoriam
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