"Nossa época tem sido marcada
pela ilusão de que a felicidade
é uma espécie de direito.
Eu tenho testemunhado a angústia
de muitos pais para garantir
que os filhos sejam "felizes".
Pais que fazem malabarismo
para dar tudo aos filhos e protegê-los
de todos os perrengues-
sem esperar nenhuma
responsabilização
nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem
e imediatamente os pais
já se tornassem devedores.
Para estes, frustrar os filhos
é sinônimo de fracasso pessoal.
Mas é possível uma vida
sem frustração?
Não é importante que os filhos compreendam
como parte do processo educativo
duas premissas básicas do viver,
a frustração e o esforço?
Ou a falta e a busca,
duas faces de um mesmo movimento?
Existe alguém que viva sem confrontar
dia após dia com os limites
tanto da sua condição humana
como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço.
Prefere a genialidade.
O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto.
Dizer que o fulano é "esforçado"
é quase uma ofensa.
Ter que dar duro para conquistar algo
parece já vir assinado com o carimbo de perdedor.
Bacana é o cara que não estudou,
passou a noite na balada
e foi aprovado no vestibular de medicina.
Este atesta a excelência dos genes de seus pais.
Esforçar-se é, no máximo,
coisa para os filhos da classe C,
que ainda precisam assegurar seu lugar no país."
Texto de Eliane Brum, jornalista e escritora.