domingo, 28 de fevereiro de 2021

MUITOS FILHOS ACHAM QUE SEUS PAIS SÃO SEUS ESCRAVOS.

"Nossa época tem sido marcada

pela ilusão de que a felicidade

é uma espécie de direito.

Eu tenho testemunhado a angústia

de muitos pais para garantir

que os filhos sejam "felizes".


Pais que fazem malabarismo 

para dar tudo aos filhos e protegê-los

de todos os perrengues- 

sem esperar nenhuma 

responsabilização 

nem reciprocidade.


É como se os filhos nascessem

e imediatamente os pais

já se tornassem devedores.

Para estes, frustrar os filhos

é sinônimo de fracasso pessoal.


Mas é possível uma vida

sem frustração?

Não é importante que os filhos compreendam

como parte do processo educativo

duas premissas básicas do viver,

a frustração e o esforço?

Ou a falta e a busca, 

duas faces de um mesmo movimento?


Existe alguém que viva sem confrontar

dia após dia com os limites

tanto da sua condição humana

como de suas capacidades individuais?


Nossa classe média parece desprezar o esforço.

Prefere a genialidade.

O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto.

Dizer que o fulano é "esforçado"

é quase uma ofensa.

Ter que dar duro para conquistar algo

parece já vir assinado com o carimbo de perdedor.

Bacana é o cara que não estudou,

passou a noite na balada

e foi aprovado no vestibular de medicina.

Este atesta a excelência dos genes de seus pais.

Esforçar-se é, no máximo,

 coisa  para os filhos da classe C,

que ainda precisam assegurar seu lugar no país."

Texto de Eliane Brum, jornalista e escritora.


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